quarta-feira, junho 29, 2011

Il y a quelque chose..

Sou a obrigada a concordar com um lugar-comum bastante badalado: o Verão é desconcertante.
Há qualquer coisa que tira do sério as pessoas. Mexe lá com as hormonas e os corpos.

A principal diferença que noto é o aumento exponencial sobre a temática masculina, nas minhas conversas com mulheres. Sobretudo as solteiras, claro está.

A preocupação da solidão agrava-se, o desespero leva a medidas desesperadas (ou pelo menos a aspiração a estas), os velhos "amores" passam a ser perfeitos, os suspiros aumentam.

Acredito que a "abertura da época dos casamentos", parafraseando um querido amigo, também ajuda. É que nós, mulheres, não nos aguentamos nestas coisas. Pró bem e pró mal, mas sempre, em ambos, pró exagero. Enfim, orgulho-me de não ser nada lamechas, não obstante ser uma romântica incurável, mas tenho que reconhecer que há umas certas oscilações com esta época - mas cada vez menos, de ano para ano. Penso que estou a conformar-me com a perdição do meu caso. O que é bom. E mau.

Anda lá, Santo António, não te vás embora sem consolares aqui umas quantas amigas das minhas!

sábado, junho 18, 2011

terça-feira, maio 31, 2011

das misérias

E depois há os dias em que um sem-abrigo e uma vizinha preocupada nos obrigam a recolocar tudo em perspectiva..

Maiores que as misérias em que alguns vivem, são as misérias que nos permitimos ser.

segunda-feira, maio 23, 2011

do(s) "príncipe(s) encantado(s)" que existe(m) fora do guião

Fazemos mil planos.

Dizemos: a minha vida vai ser assim, assim e assim.. e se der tempo ainda assim. Tentamos seguir os planos. A vida não deixa. E nós persistimos, teimosos, tentando empurrar os caminhos exactamente para onde era "suposto" estarem. 
Não é que toda a gente seja assim, mas estou convencida, que a esmagadora maioria, consciente ou inconscientemente, o é.

Os planos a falharem e nós a insistirmos neles. A vida a dizer: não é por aí! E nós: é, porque eu quero. Mas a vida não se coaduna com os nossos quereres. Era o que faltava!.. Ainda pensarmos que mandamos alguma coisa nela! Há uns que vivem a vida inteira em negação. Não querem aceitar que seja de outra forma e por isso aceitam viver a fingir.

Por estas semanas, deixei cair mais um mito urbano pessoal.
Tenho esta panca de dois critérios muito bem fechados e definidos no recrutamento masculino. Como são dois critérios relativamente difíceis de conciliar num só homem, a eliminação é constante e fácil, mas que necessariamente torna difícil uma "selecção". 
Sou um bocadinho presunçosa. Procuro o "gourmet", argumentando que sou selecta. No entanto, no meio do deserto dos últimos tempos, uma pequena gota de água substituiu muito bem uma garrafinha de Evian ou Perrier. O que me fez concluir o seguinte: na verdade, o "gourmet" é rapidamente relegado para segundo plano quando nos deparamos com o básico e essencial para uma relação - interesse e carinho (Amor). Se nos sentimos verdadeiramente estimados caem por terra os critérios e as exigências, deixa de importar uma inteligência olímpica ou um estilo de vida quase paralelo. 
Não que eu tenha encontrado um amor da minha vida, mas tive a graça de me cruzar com alguém que me fez recolar tudo em perspectiva e, apesar de ser fruto de uma história tão  insólita como relampejante, valeu pelo que me fez questionar. Não há cá selecções quando há Amor. O Amor por si já é uma selecção.

E lá levei eu (mais) uma chapada de luva branca e mais uma linha do meu "guião" interno riscada, só para eu reaprender a humildade da minha pequenez, para saber o meu lugar. Não há, nem vai haver planos que me salvem. O inesperado continuará a irromper pela minha vida sem pedir licença nem ter considerações por regras e eu tenho mais é que me habituar a este reset constante e libertar-me das formatações. 
Por muito livre e independente que eu pense que já sou, a verdade é que ainda tenho muito que tirar de dentro do meu quadrado. 
Que eu tenha discernimento e abertura para isso.

quarta-feira, maio 04, 2011

da minha esquizofrenia

às vezes pergunto-me onde pertenço. quando alguém pergunta de onde sou respondo muitas vezes, alegremente, que sou do mundo, mas já é mais que isso: há muitos mundos diferentes que habitam em mim.

na última sexta-feira jantei num bairro social na Damaia, precisamente no dia do temporal de granizo. e quem é que vai para um bairro destes numa sexta destas à noite? nós (eu e a minha turma de mestrado).

mas no sábado dei por mim a jantar na Portugália (vá, nem é assim tão chique), seguido de uma visita a uma suite de hotel de cinco estrelas com uma das melhores vistas de Lisboa que já pude vislumbrar, paga por um indiano, um inglês e um paquistanês (eu e mais três amigas, não me interpretem mal! ;) e como senão bastasse, ainda fomos para o BBC entrando sem pagar, pelo corredor VIP, porque os nossos nomes estavam na guest list.

e no domingo um almoço de família e um cafézinho com a avó, a tia e mãe (porque afinal era dia da mãe), sem ainda falhar a inquestionável misssinha pois claro.


no outro dia o meu pai, a propósito de eu trabalhar com gente 'pobre': "ficas a saber que a tua família sempre se deu mais com gente pobre do que com gente rica". respondi-lhe prontamente: "pois, mas eu já é quase 50-50. não te esqueças que agora há sítios onde me movo em que até o 'protocolo' dos beijinhos é diferente (um ou dois...)"


ora bem.. isto já dava para tripla personalidade e ainda nem falei da diversidade das outras minhas "andanças"...

serão estas realidades irreconciliáveis? sou incoerente? estou a enlouquecer?

gosto de acreditar que não. gosto de acreditar que é o estar aberta a todas as diferentes realidades que me faz mais pessoa, que é assim que cresço, que é por isso que acolho cada vez mais e melhor os outros e o 'distante' de mim. gosto de pensar que não me defino por uma noite num bairro social ou outra num hotel de cinco estrelas. porque gosto de pensar que o me define são sempre e mais uma vez as pessoas com quem me cruzo, e as pessoas não se definem pela quantidade de dinheiro que têm (ainda que às vezes não só, mas também).  porque mesmo quando "fujo" para os que têm mais é sempre para os que têm menos que quero voltar. porque nos momentos em que me são apresentadas as diferentes opções, sei escolher em paz o que discirno que é mais coerente com o que sou. porque descobri, ainda que à custa de algum sofrimento e auto-flagelação, que o mal não está em conviver com o muito, mas sim em usá-lo mal.

porque o que eu sou é bem mais do que o que faço. e porque mesmo com o que sou de 'mal' há Alguém que me ama e me ama até ao fim de mim mesma (ver Jo 13, 1b).

sexta-feira, abril 29, 2011

Ressuscitou! E nós o que damos?!



Detida nesta insensatez:
"Tu estás mais disposto a dar, que nós a receber."
(Anónimo Século II)


e nesta:

“Descobri um paradoxo: se amarmos até que doa, não poderá haver mais dor, só amor”
(Madre Teresa de Calcutá)



terça-feira, abril 19, 2011

Boa Semana Santa!

«Não são os teus bens que distribuis aos pobres, mas apenas lhes restituis o que lhes pertence. De facto, tu usurpas o que foi dado a todos para uso de todos. A terra pertence a todos e não aos ricos. Contudo, ela foi tomada por alguns em detrimento de todos os que a trabalham. Assim, estás a pagar uma dívida, o que é bem diferente de dar esmola de forma gratuita.» 


(Ambrósio de Milão, século IV)

sexta-feira, abril 15, 2011

do bem, do bem, do bem



e depois há tanto, tanto bem que nunca caberia neste blogue.. e que ainda me estou a organizar para escrever sobre algum dele! ;)

segunda-feira, março 28, 2011

do mal

sabemos que há mal. sabemos que há muito mal no mundo e a nossa reacção básica é fugir. é uma espécie de auto-preservação. e bem. 

só que há males que são mais rápidos que as nossas pernas, mais perspicazes que a nossa imaginação, mais fortes que as nossas fracas defesas. e é nessas alturas que a tristeza nos invade. como é o mal pode ser tão mau?

não deixo de me surpreender com a minha surpresa perante o mal. sei que ele existe, já o experimentei muitas vezes, mas ele apanha-me sempre desprevenida. revolta-me as entranhas, tira-me voz e vida.

passo a vida a procurar focar-me na "implementação" do bem, a tentar promover o lado humano das pessoas e isso traz-me muitas graças, faz-me descobrir que o bem é sempre maior do que o que espero. mas depois o embate brutal com o mal também é mais dilacerante. pela graça, precisamente, de viver rodeada de muito bem.

não o deixo matar-me, não o deixo deitar-me abaixo, sei que sou mais forte que ele, mas o seu impacto é sempre estupidamente doloroso. 

é de natureza do ser humano: "É que o é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico." (Rm 7, 19) mas é penoso à mesma, sobretudo quando o encontramos em sítios e em nome de coisas que nada deveriam ter a ver com o mal.

mas eu acredito profundamente na vitória do bem, do Amor. não tenho nenhuma razão, para não acreditar. isto foi só um desabafo.

quinta-feira, março 17, 2011

assombrada



Podemos ser perseguidos pela única coisa no mundo que 
não só não nos persegue, como não nos quer perseguir?


segunda-feira, março 07, 2011

É melhor dois do que um só

É melhor dois do que um só: 

tirarão melhor proveito do seu esforço.

Se caírem, um ergue o seu companheiro. 

Mas ai do solitário que cai: 

não tem outro para o levantar!

E se dormirem dois juntos, dormem quentes; 

mas se alguém está só, como se há-de aquecer?

Se um só é oprimido, dois já conseguem resistir a isso; 

o cordel dobrado em três não se parte facilmente. 



(Ecl 4, 9-12)

sábado, março 05, 2011

workshop de escrita criativa (Pedro Sena Lino)

E aqui está o meu resultado depois do TPC que ele me deu:

A música preenche os espaços não percorridos do coração, de tal forma que me traz de volta ao que já considerava perdido e ainda ao que nunca pensei alcançar. Envolve-me, retorce-me e faz-me viajar em tempos e momentos que nunca fariam sentido noutro espaço.
Com a música fico um pouco mais perto de Deus, aproxima-me dos homens, isolados e encerrados em mim própria. Transporta-me para mundos não imaginados, percorrendo os mundos de sempre. Alucino com a continuidade  e aspiro pelo silêncio. Mas regresso recorrentemente ao vício da música que me encontra em ciclos ilógicos, semi-perfeitos, arrojados e disformes.
O meu desejo de Deus é que sustenta e dá sentido à minha vida, precisamente porque a música é o que me transcende e o que me eleva ao divino. A  música só pode vir de Deus e perpetuar-se no homem. É que as minhas emoções são mais vastas que o Inverno. Não compreendo, não posso compreender ao que a música me conduz. As minhas emoções caminham ao ritmo do que a música me oferece e desorientam o que há muito considerava orientado. Sentir é o que preciso e não tenho e o que procuro secretamente na música mas não encontro.
A música preenche os espaços não percorridos do coração. E daí não me encontrar. Sim, o que não encontro é a mim e não à música. A sala era grande e tinha movimento. Estou perdida em espaços que afinal não me pertencem. Pertenço-lhes eu? O que me perdi, Senhor! Se a Ti te peço para que me ajudes, sei que virás em meu auxílio. Mas quando? As minhas ansiedades consomem-me e o que não percebo corrói-me. Se tivesse o dom do discernimento e do acolhimento de mim própria.. Se soubesse onde descansa o meu coração que só de Ti tem desejo! É em Ti, bem sei, mas como, onde e QUANDO! 
Estou consumida pelo Amor que não tenho, que não encontro, do qual não me sinto digna. Não o mereço mas quero. Quero alguma coisa: perceber. Se o Reino de Deus é já aqui e já agora é algo semelhante ao Amor entre todos, isso seria o céu na terra. O Amor, sempre o Amor! Obcecada com o Amor, viciada nas pessoas, encontrada na vida, mas desejando um mundo onde todas as pessoas possam ser mais pessoas. Sim, desejo, ambiciono, ordeno! Onde haja um homem todo e todo o homem. Onde a vida abunde em campos largos, mares altos e sol nascente.
Por isso repito: a música enche o vazio da alma e as minhas emoções são mais vastas que o Inverno.

terça-feira, março 01, 2011

para ti, querido Luís!

Com abraço igual à distância que vai daqui, aí à República Centro-Africana! :)


Nas tuas mãos, Senhor, coloco as minhas,
junto de Ti repouso o meu ser;
à tua vida ofereço a minha vida,
à tua vontade eu uno o meu querer.
Nas tuas mãos, Jesus, coloco as minhas,
venho para Te contemplar,
preciso de Te conhecer
em silêncio, Te amar.


O pão do teu coração, que consagraste a Ti
reparte-se em acção de graças,
e dá de si
é sinal do mesmo amor...
Uma missão lhe confiaste:
ser pão do Senhor.


O pão do teu amor procura o teu coração:
multiplica-se, transforma-se,
recebe de Ti
a sua vocação:
ser dom universal de si,
unir, reparar e ser amor.


O pão do teu ser, doação eterna de Ti,
reconhece-se onde estás,
é tua transparência,
feita de Amor e Paz
pão me ofereço assim, teu pão até ao fim.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

domingo, janeiro 30, 2011

matar ou deixar-me morrer

temos que ter cuidado com o que pensamos adormecido.
porque quando é "acordado", pode voltar com muita força.
ou nos prevenimos ou matamos de vez.
either way.. envolve sofrimento.

temos nós coragem de sofrer?

sexta-feira, janeiro 21, 2011

destes heróis anónimos

Não sei bem que pense destes com quem me cruzo.

Tenho uma profissão dura - a de ter que apontar caminhos. E quando eles não existem e é o desespero que se personifica à minha frente, apetece-me fugir. Ser cobarde, baixar os braços, dizer basta, não consigo, não quero porque não posso. Apetece-me incitá-los à revolta popular, ao roubo dos vergonhosamente ricos à custa deles próprios. Dá-me ganas de gritar aos que falam contra os apoios sociais sem conhecerem nenhuma destas realidades. De irromper parlamento adentro com eles todos atrás de mim e clamar por justiça, de lhes esfregar na cara a pobreza, que também tem cara e sofrimento. De lhes sujar as mãos, enojar com os cheiros. De os obrigar a VER! Sim, a VER! Porque o fácil é viver num condomínio fechado e fingir que tudo isto não existe. Ir passar um fim-de-semana ao monte e minimizar a realidade. Para calar a voz da consciência, satisfazer os pudores socais e alimentar uma certa imagem, talvez contribuir um (muito) pouco para uma organização através da internet ou ir a um jantar chiquérrimo de beneficência (é melhor evitar o contacto directo), mas nada de exageros que a crise anda aí.
E ter estes heróis nacionais que andam na intervenção social, sem estatutos reconhecidos, com contratos mais precários que os dos próprios utentes, a dar horas e sangue. E suor voluntários nos projectos onde são.. profissionais. A viverem na eminência de corte de mais um financiamento, quando eles precisam de mais vinte (pelo menos). A fazer omeletes sem ovos (e frigideira!). A serem humanos para além de toda a humanidade possível. A quererem crer, já sem crerem. A desesperar com contenção porque nunca podem desesperar tanto como os que têm à frente. Sem os puderem abraçar e fazer acreditar que têm verdadeira compaixão pelas suas chagas (porque somos "técnicos", não somos amigos.. porque é questionável).
Estes heróis anónimos todos os dias nas trincheiras da frente sem capacetes sequer, quanto mais armas para atacar os males inimigos e alheios. Expostos. Entregues. Com um brilho escondido nos olhos, sempre que uma luzinha se acende. À espera que exista sempre uma luzinha qualquer que lhes permita alimentar a própria chama. Só mais um bocadinho..

sábado, janeiro 15, 2011

da confiança

Quando me "esqueço" de escrever em momentos importantes, dá-me sempre a vontade de declarar a morte súbita deste blog e efectivamente nunca o faço.

Ando a mil (pra variar) e ficam para trás as coisas importantes como rezar e escrever.

Mas sei que posso sempre voltar. Sei que tenho sempre colo junto de Deus. E as coisas muitas vezes não correm como esperamos e há obstáculos que nem sabemos como ultrapassar. Mas a minha opção é a da confiança. Mesmo quando a confiança se começa a esvair. Mas mais do que nunca não me posso queixar da minha vida. Teria, eventualmente, razões para isso. Mas não posso. Escolho confiar. Às vezes é mesmo preciso estabilidade, desde que não nos entreguemos à comodidade. Às vezes somos só nós e Deus, o tal Deus connosco.

Não é tudo linear, nem tudo corre bem. Mas tudo é o que é e os meus calculismos de pouco servem.

A minha palavra de 2010 foi permanecer. Que agora possa permanecer.. na confiança, mesmo cheia de tremeliques, daqueles meus, daqueles humanos.

Haja Deus.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Não te quero senão porque te quero

No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de Enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.



Pablo Neruda Cien Sonetos de Amor (1959) Soneto LXVI

segunda-feira, dezembro 20, 2010

estrelas - muitas!

No noite dos meus anos apareceram-me umas estrelas à porta de casa.
Eu não as esperava e traziam com elas toda a Luz de Deus (e por isso são elas próprias o meu maior presente) e este poema.
Já no ano passado, tinham aqui vagueado outras estrelas.. espero que esta "moda" passe.. senão ainda morro de ataque de coração, com mais algum aniversário destes! ;)

[...]
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto»

A estrela, Sophia de Mello Breyner Andressen



quarta-feira, dezembro 15, 2010

dos filhos que (re)convertem os pais

Há um fenómeno curioso nos dias de hoje.

Antes a fé era ensinada, passada exclusivamente de pais para filhos. Tradição familiar. "Normal", inquestionável.
Nem se pensava na possibilidade da não existência de Deus. Não era sequer uma hipótese a considerar.

Depois veio o Iluminismo. Mas ainda assim, até ao início do século passado, mesmo na Europa (sim, porque há outros sítios do mundo que ainda não se coloca a hipótese da não existência de Deus), para alguns era inquestionável. Uma coisa é certa: regra generalíssima que eram os pais a catequizar os filhos.

Hoje em dia vivemos numa sociedade que se pensa secularizada ou pelo menos que se quer assim. Melhor para nós, crentes, obriga-nos a questionar, a sair do quadrado e a ter que conhecer as razões da fé - sim porque a nossa fé tem razões, fundamentos. Obriga-nos a ser mais conscientes. Obriga-nos à autenticidade, senão não só nada valemos como ninguém nos deixa ser "porque sim".

E é aqui que entram os filhos que convertem os pais. De repente, a vida (Deus) concede-lhes a oportunidade fabulosa de irem mais fundo, de perceberem o que ali (naquele desejo de mais) se passa. De pensarem a fé. Começa tudo a fazer sentido e a opção de vida passa ao consciente e comprometido. Os pais param pasmados. Descobrem que até nisto se pode aprender com os filhos. Começam a ir a missas que são animadas por eles, a encontros em que eles participam, a celebrações que eles preparam. "Fogem-lhes" pras beatices. E porque é que um filho do mundo de hoje havia de fugir pra uma igreja, se lá não encontrasse uma "razão" forte? E começam eles a voltar. A apalpar terreno, a (re)descobrir o fascínio que tanto deslumbra os filhos, que lhes faz falta como água. E os não intencionados filhos evangelizam os pais pelo seu testemunho de ausência.

Parece uma contradição, mas acontece. Aconteceu comigo e acontece com muitos.

Isto a propósito de ter conhecido duas mães que se lamentavam (no seu orgulho escondido) do tempo que os filhos "perdem ali" prós estudos. 
"Mas não fazem tudo e não são bons alunos?" - pergunto eu.
"Sim, mas não sabemos como." - dizem elas.

Deus sabe. E é por saber, que se serve dos filhos para converter os pais.
Todos os dias.